Lá se ia ele, o famoso coxo da
Porta Formosa, levado por alguns misericordiosos e bem intencionados, já que,
não tendo como ajuda-lo com esmolas todo o santo dia, ajudava-o no seu
empreendimento e ofício de “arrecadar esmolas”, transportando-o até a porta do
templo, seu ponto oficial.
Diz o texto que todos os dias
aquele homem, famoso por sua deficiência física (o chamado coxo), era deixado
lá. Todos os dias o coxo ia ao templo. Nos dias de hoje, diriam que o tal homem
era “crente”, ou se preferirem, evangélico. Afinal não é bem isso que falam da
gente? Não foi isso que comentaram sobre você quando iniciou sua rotina
“fanática” ou de primeiro amor de ir à igreja todos os dias? “Olha só, ele
virou ‘crente’! Vai à igreja todos os
dias, não sai da igreja mais! Vai sábado à noite, vai domingo de manhã e à
noite, vai no culto de oração, vai na escola dominical, vai no culto dos
lares... Virou “crente”! O coxo, diriam hoje, era “crente”. Nada de novo
acontecia, nenhum testemunho ele podia dar, mas “crente” ele era!
Segundo ponto interessante sobre
o coxo é que, não obstante ele fosse à igreja todos os dias, ele não ia à
igreja com o objetivo, óbvio e esperado de quem vai à igreja, de louvar e
adorar a Deus, de estudar a Bíblia, aprender mais de Deus, entrar na presença
de Deus. Ele tinha um único objetivo: receber apenas uma esmolinha, o
suficiente para o almoço e janta daquele dia somente (afinal, ele seria levado
ao templo, ao seu ponto, no outro dia, para mais um dia de esmolas). Então, ele
sequer entrava na igreja! Ele apenas queria uma esmolinha. Ficava lá fora,
esperando a esmolinha.
Quantas vezes não fomos à igreja
esperando receber apenas uma esmolinha? Esmolinha!!!?? Como assim “esmolinha”?
Sim, a esmolinha de ouvir suas músicas favoritas na hora do louvor, a esmolinha
de receber uma oração pela sua dor ou pra ser promovido na sua empresa, a
esmolinha de ver seu amigo ou pretendente, uma esmolinha apenas. Daí, até que
entra na igreja, mas não entra na presença de Deus, assim como o coxo, que só
esperava receber mesmo a esmolinha de cada dia, nem entrava no templo. Ficava à
porta, esperando sua esmolinha.
Mal sabia aquele coxo que o que
Deus queria dar a ele excedia ao valor de toda a prata e todo o ouro dessa
terra!!!! Mal sabe você que o que Deus reservou pra nós nenhum olho viu, nem
ouvido ouviu, nenhum coração sentiu! Não é uma esmolinha!
Coisa interessante de ver também
é que na vida daquele coxo, embora pudesse ser considerado um “crente” que ia à
igreja todos os dias, nada acontecia de diferente.
Ele ia à igreja todo santo dia,
mas chegava coxo e saia coxo. Assim como nós às vezes. Quantas vezes não
chegamos à igreja, entramos, participamos do culto, oramos, cantamos louvores,
recebemos a benção apostólica de que sairemos com a graça, com o amor e a paz,
mas dali saímos exatamente do jeito que entramos, vazios, sem nenhum “upgrade”
na alma (se é que se pode assim comparar).
Sim, às vezes chegamos tristes,
saímos tristes, chegamos ali desencorajados, saímos com mais medo ainda,
entramos sem esperança e vamos embora ainda mais desesperançosos. Chegamos
fracos, saímos fracos. Quantas vezes não fomos para a igreja desesperados e saímos
dali ainda mais desesperados? Chegamos magoados e retornamos para casa ainda
magoados!!! Chegamos ao templo coxos. Saímos coxos.
Por que isso? Por que isso
aconteceria a um “crente” que há tanto tempo vai à igreja todo o dia, em todos
os cultos?
Penso que seja, talvez, porque
vamos ao templo (à igreja), entramos, mas não permitimos que o nosso espírito
entre realmente na presença de Deus e que embora cheguemos até ali, nos limitamos
a ficar na porta, com nossos pensamentos bem longe de Deus. Talvez seja porque
vamos ao templo apenas no intuito de receber uma esmolinha.
Ah, o coxo nem imaginava que
sairia dali um dia, com algo mais valioso que sua rotineira esmolinha! Mal
sabia ele que o próprio Deus lhe havia reservado a sua graça preciosa revelada
através do sangue do seu único filho Jesus, morto por ele na cruz! Nem
desconfiava o coxo que o que Ele receberia não seria uma esmolinha, mas seria a
salvação, garantida pelo Seu amor demonstrado através de doloroso sacrifício!
Ah, o coxo, sairia dali, mais rico que qualquer dos ricos da época! Nunca mais
pediria esmolas, pois sairia dali com o privilégio de ser chamado filho do Rei!
E para nós que de tempo em tempo
vamos à igreja com a humilde intenção de receber uma singela e pequena
esmolinha, lembremo-nos sempre: Deus quer nos dar muito mais! Ele quer que
saiamos daquele lugar – a igreja, aonde vamos todos ou quase todos os dias – cheios
da presença d’Ele, cheios da sua Essência, exalando Seu bom perfume, por termos
sim chegado tão perto, tão perto, como se o tivéssemos abraçado, sentado no
colo e sido totalmente preenchidos pelo seu Espírito.
Não saiamos mais do templo coxos.
Saiamos com o que excede ao valor do ouro e da prata, saltando e glorificando
ao Senhor como aquele homem, em seu último dia de coxo. Saiamos dali cheios da
presença do Espírito de Deus!