Lucas 23: 39-43
Lá estavam
eles, três malfeitores, pendurados cada um na sua cruz, cada um com sua
sentença, cada um com sua culpa! Mas, ei! Ressalve-se que um deles não merecia
estar lá! Sim, ele era inocente! Os dois malfeitores, companheiros de sentenças
bem sabiam disso e, certamente, a multidão também sabia. Mas insistiram na
condenação do Cristo, inocente cordeiro santo.
Está aí uma
palavra que tanto nos toca, nos choca e faz pensar sobre várias coisas. Afinal
a Palavra de Deus, como espada de dois gumes, produz efeitos em vários
sentidos. Tal episódio não só nos conta sobre a condenação injusta de um
inocente, assim como a humilhação e chacota dos que ali estavam a contemplar,
inclusive de um dos condenados “parceiro” de cruz, como também nos ensina que o
que salva é o arrependimento e não as obras, afinal, quando o ladrão se
pronuncia a defender a Cristo e dizer que Ele sim era um justo que não merecia
a dor da cruz reconhecendo sua condição de pecador, não teve tempo para se
redimir entre os homens, não teve chance de mostrar à sociedade que o condenara
o remorso ou arrependimento de tudo quanto fizera na terra. Esta palavra também
gera discussão e estudo sobre para onde vai o que creu na palavra de Salvação logo
após sua morte. Enfim, a Palavra de Deus é cortante e nos fere onde precisamos
ser feridos e nos cura onde precisamos ser curados.
De tudo que
este episódio pode nos ensinar, o que ela realmente me impactou ultimamente foi
numa verdade um tanto que desconfortável para mim.
Não te
parece estranho que aquele malfeitor que repreendeu o outro por blasfemar contra
Jesus, ainda na cruz, já condenado, sem tempo pra pagar nada àqueles a quem fez
mal, tenha recebido de Cristo a sentença celestial de poder morar no céu?
Afinal de
contas, não é à toa que ele tenha sido sentenciado a morte de cruz e coisa boa
não deve ter sido pois, convenhamos, morte de cruz???? Penso que ele,
malfeitor, devesse ter matado, estuprado, roubado, deixando viúvas, órfãos,
ofendidos por terem sido subtraídos em seus patrimônios. Quanta gente ofendida e
ferida deixou!
Sendo assim,
não seria mais justo que Jesus pedisse permissão a essas pessoas ofendidas para
perdoar o malfeitor? Era a elas que ele havia causado dor, angústia e perda!
Elas esperaram muito por aquela sentença de justiça e castigo merecido. Contaram
os dias no calendário da parede (ok, não havia calendário na parede) para
participar da cerimônia de dor daqueles que as feriram, maltrataram e acabaram
com suas vidas, com sua felicidade! Como Jesus, assim, sem mais nem menos, o
perdoa e ainda garante lugar no céu a um malfeitor, um criminoso assassino e
salteador como aquele?
É aí que eu
me surpreendo. E eu disse que daria meus pitacos sobre isso sem saber se certo
ou não. Mas o que me vem é que quando ofendemos e causamos mal a alguém,
pecamos primeiramente contra Deus e na verdade é Ele o único ofendido.
Portanto, quando somos ofendidos, não temos direito de arguir em nada e nem de
cobrar justiça e desculpas, pois o verdadeiro ofendido passa a ser o próprio
Deus.
Ah, mas e
aquelas pessoas ofendidas e lesadas por causa dos atos do malfeitor? Elas, elas
serão tratadas pessoalmente pelo próprio Deus, porque Jesus nos ensina sobre o
dever de perdoar. E não se trata de
poucas vezes, nem de passagens inexpressivas.
O próprio
Jesus, respondendo aos discípulos sobre quantas vezes se deve perdoar, disse
que 70X7, ao dia. Tudo bem, vai. Quem seria o perturbado que nos ofenderia
tantas vezes num dia só? Acredito que se houvesse, o próprio Deus daria um
jeito nele! Mas não acredito que seja pela possibilidade de sermos ofendidos
tantas vezes, mas pelas nossas inúmeras frustradas tentativas de perdoar. Já
percebeu que nós até decidimos perdoar (“ah, deixa pra lá”, falamos com alguém,)
mas logo estamos remoendo o mesmo assunto e já pestanejando de novo.
E quem não
se lembra da parábola do credor incompassivo (Mt. 18:23-35) que mesmo sendo
perdoado de uma grande dívida, acredito que aproximadamente R$ 36.720.000.000,00
(eu fiquei assustada e receio ter calculado errado: 1 talento = 21,6 Kg de
prata, 1g de prata = R$ 17,00, o cara devida DEZ MIL TALENTOS!!!! Ou seja,
10.000 X 216.000 X 17=??? É isso mesmo??? R$ 36.720.000.000,00?
Então, como
eu falava, o cara, servo do rei, devia a ele essa quantia, sabe lá como ele
contraiu essa dívida, exorbitante e impagável. Daí, ao ser cobrado da dívida, o
rei ordenou que ele, sua mulher, seus filhos e todos os bens fossem vendidos
pra que conseguisse quitar sua dívida. É, gente, isso mesmo, que ELE fosse
vendido, sua mulher e filhos também, não só os bens, mas que o próprio devedor
e família fossem vendidos, porque, cá pra nós, só se eles fossem vendidos pra
pagar a dívida! E dependendo do valor do caboclo, não sei não!!!
Mas aí o
devedor, coitado, implorou ao rei que lhe desse um pouco mais de tempo e
tivesse paciência e misericórdia, prometendo que pagaria em breve. Mas como?
Aquele valor?! Ele achava mesmo que o rei fosse ingênuo pra acreditar nisso? Ou
será que ele mesmo não tinha noção do que eram 10 mil talentos e que a dívida
não seria paga jamais, nunquinha?
Pois é, o
rei sabia que a dívida jamais seria paga, que não importasse o tempo que desse
e mesmo que o devedor se vendesse e vendesse sua família, jamais conseguiria
lhe pagar a dívida. Teve pena então daquele pobre servo (pobre mesmo, porque
devendo tudo aquilo, poxa vida!) e o absolveu da obrigação de pagar por sua
dívida.
Que alegria,
gente!!! Imagina você dever uma fortuna dessas e ser perdoado! Quantas Mega
Senas ele precisaria jogar e ganhar? Quantos Big Brothers ele precisaria vencer
pra arrecadar todo esse dinheiro? Daí, o rei simplesmente absolve aquele servo de
pagar R$ 36.720.000.000,00? Nem sei ler esse número!!! Mas eu sei que é muito!
Se fosse absolvida só da fatura do cartão de crédito já daria pulos de alegria
e faria um culto de ação de graças convidando a igreja inteira!
Foi embora o
servo aliviado, feliz da vida! De certo que se achou o servo mais amado e
valorizado por aquele bondoso rei.
Mas daí....
o servo... logo que saiu da sua prestação de contas ileso da fúria e impaciência
do credor e livre de ter que perder tudo e ser vendido, encontrou um conservo,
de quem era credor do valor de 100 denários, que era o equivalente a R$ 6800,00!
(1 denário equivalia ao pagamento de 1 dia de serviço braçal, 4g de prata, ou
seja 4X R$ 17,00 X 100 = R$ 6800,00)
O servo
perdoado, encontrando o conservo que passava ali desavisado, devendo pra ele 6800
reais, o abordou e agarrando-o pelo pescoço diz: “Aha!!! Sumiu, né? Tá pensando
que esqueci que me deve, seu ‘nocego’? Não foge não, meu filho! Me paga logo!
Tá pensando que sou seu pai?” (isso tudo faz parte da minha imaginação, gente).
O coitado do
conservo, ciente da sua dívida e convenhamos que dever R$ 6.800,00 não é assim
pouquinho, né? Mas também não é 36 mi.... bi...., ah, sei lá, não é 10 mil
talentos! Pediu ao companheiro suplicando que tivesse paciência, dizendo que
iria pagar! – É, confesso que acredito que ele até conseguisse pagar.
Mas o servo,
esquecendo da boa dádiva do rei, da sua compaixão e da graça de ser perdoado de
uma dívida exorbitante e impagável, voltou-se ao conservo com fúria e não
estendeu o perdão a ele não! Mandou o coitado inadimplente para a prisão pra
que ficasse lá até que sua dívida fosse toda paga.
Os que
estavam ali com eles, tendo testemunhado a graça recebida pelo servo em ser
perdoado da dívida impagável e também sua falta de compaixão em perdoar,
indignaram-se e foram logo contar tudo ao rei.
Aí o tempo
fechou!!!
“Como assim?”,
fala o rei indignado. “Eu te perdoo de uma dívida que você jamais pagaria, nem
que eu te desse a vida inteira para pagar, pois você só iria aumentar sua
dívida e você, ao ver seu amigo lhe suplicando o mesmo, por uma dívida muito
menor, lhe aprisiona por isso! Esqueceu que eu, sendo rei, te perdoei de muito
mais?? Pois agora, quem será aprisionado até que me pague por tudo que deve é
você!
Foi embora
preso o servo sem compaixão. E não sei não se ele seria solto, pois pagar por
tudo aquilo, meu filho, só se fizesse parte do Petrolão.
Brincadeiras,
interpretações e trocadilhos à parte, mas o detalhe da parábola está no verso
35: “Assim também vos fará meu Pai celestial, se cada um de vós não perdoar de
coração ao seu irmão” (irmã, pai, mãe, filhos, sogro, sogra, colegas, amigos,
pastor, líderes, vizinhos etc). E este detalhe não me parece uma prerrogativa
do crente apenas, não uma escolha ou um item opcional para a salvação. Para
mim, parece ser o que me credencia ou descredencia para a salvação, pois se não
me digno a perdoar, não me torno digna do perdão real, do perdão maior, do
perdão à dívida maior.
Cá pra nós,
falar assim até parece fácil. Parece que só consegue falar de perdão quem nunca
foi humilhado por um chefe, um colega de trabalho, quem nunca foi traído ou
rejeitado, quem nunca viu sua família sendo desmoronada e ameçada por uma
traição, quem nunca foi demitido ou difamado, quem nunca sofreu bullying, quem
nunca foi excluído socialmente, quem nunca foi enganado, ferido. Falar de
perdão não é fácil pra ninguém, pois afinal, quem nunca sofreu nem que seja uma
dessas coisas?
A verdade é
que ninguém pensa na necessidade de perdoar assim, como se fosse uma obrigação,
como se não tivéssemos direito e titularidade de nos sentir ofendidos para
sempre, como se nós mesmos fôssemos mais devedores a Deus do que os nossos
ofensores são de nós, como se nossa dívida fosse infinitamente maior do que a
ofensa que sofremos uma dia, seja ela a exclusão, a humilhação, a rejeição, a
traição, a demissão, o descaso, o desinteresse, o egoísmo, e seja ela de quem
vier.
Mais do que
necessário perdoar, é necessário saber quão necessitados somos de perdão. Acredite,
não estamos tão bem na fita assim antes de recebermos o perdão de Deus. Quanto
mais noção temos do valor da nossa dívida paga na cruz, mais fácil se torna
perdoar.
Traga aí uma
calculadora pra eu fazer meus cálculos....