quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Faça seus cálculos!


Lucas 23: 39-43

Lá estavam eles, três malfeitores, pendurados cada um na sua cruz, cada um com sua sentença, cada um com sua culpa! Mas, ei! Ressalve-se que um deles não merecia estar lá! Sim, ele era inocente! Os dois malfeitores, companheiros de sentenças bem sabiam disso e, certamente, a multidão também sabia. Mas insistiram na condenação do Cristo, inocente cordeiro santo.

Está aí uma palavra que tanto nos toca, nos choca e faz pensar sobre várias coisas. Afinal a Palavra de Deus, como espada de dois gumes, produz efeitos em vários sentidos. Tal episódio não só nos conta sobre a condenação injusta de um inocente, assim como a humilhação e chacota dos que ali estavam a contemplar, inclusive de um dos condenados “parceiro” de cruz, como também nos ensina que o que salva é o arrependimento e não as obras, afinal, quando o ladrão se pronuncia a defender a Cristo e dizer que Ele sim era um justo que não merecia a dor da cruz reconhecendo sua condição de pecador, não teve tempo para se redimir entre os homens, não teve chance de mostrar à sociedade que o condenara o remorso ou arrependimento de tudo quanto fizera na terra. Esta palavra também gera discussão e estudo sobre para onde vai o que creu na palavra de Salvação logo após sua morte. Enfim, a Palavra de Deus é cortante e nos fere onde precisamos ser feridos e nos cura onde precisamos ser curados.

De tudo que este episódio pode nos ensinar, o que ela realmente me impactou ultimamente foi numa verdade um tanto que desconfortável para mim.

Não te parece estranho que aquele malfeitor que repreendeu o outro por blasfemar contra Jesus, ainda na cruz, já condenado, sem tempo pra pagar nada àqueles a quem fez mal, tenha recebido de Cristo a sentença celestial de poder morar no céu?

Afinal de contas, não é à toa que ele tenha sido sentenciado a morte de cruz e coisa boa não deve ter sido pois, convenhamos, morte de cruz???? Penso que ele, malfeitor, devesse ter matado, estuprado, roubado, deixando viúvas, órfãos, ofendidos por terem sido subtraídos em seus patrimônios. Quanta gente ofendida e ferida deixou!

Sendo assim, não seria mais justo que Jesus pedisse permissão a essas pessoas ofendidas para perdoar o malfeitor? Era a elas que ele havia causado dor, angústia e perda! Elas esperaram muito por aquela sentença de justiça e castigo merecido. Contaram os dias no calendário da parede (ok, não havia calendário na parede) para participar da cerimônia de dor daqueles que as feriram, maltrataram e acabaram com suas vidas, com sua felicidade! Como Jesus, assim, sem mais nem menos, o perdoa e ainda garante lugar no céu a um malfeitor, um criminoso assassino e salteador como aquele?

É aí que eu me surpreendo. E eu disse que daria meus pitacos sobre isso sem saber se certo ou não. Mas o que me vem é que quando ofendemos e causamos mal a alguém, pecamos primeiramente contra Deus e na verdade é Ele o único ofendido. Portanto, quando somos ofendidos, não temos direito de arguir em nada e nem de cobrar justiça e desculpas, pois o verdadeiro ofendido passa a ser o próprio Deus.

Ah, mas e aquelas pessoas ofendidas e lesadas por causa dos atos do malfeitor? Elas, elas serão tratadas pessoalmente pelo próprio Deus, porque Jesus nos ensina sobre o dever de perdoar. E não se trata de poucas vezes, nem de passagens inexpressivas.

O próprio Jesus, respondendo aos discípulos sobre quantas vezes se deve perdoar, disse que 70X7, ao dia. Tudo bem, vai. Quem seria o perturbado que nos ofenderia tantas vezes num dia só? Acredito que se houvesse, o próprio Deus daria um jeito nele! Mas não acredito que seja pela possibilidade de sermos ofendidos tantas vezes, mas pelas nossas inúmeras frustradas tentativas de perdoar. Já percebeu que nós até decidimos perdoar (“ah, deixa pra lá”, falamos com alguém,) mas logo estamos remoendo o mesmo assunto e já pestanejando de novo.

E quem não se lembra da parábola do credor incompassivo (Mt. 18:23-35) que mesmo sendo perdoado de uma grande dívida, acredito que aproximadamente R$ 36.720.000.000,00 (eu fiquei assustada e receio ter calculado errado: 1 talento = 21,6 Kg de prata, 1g de prata = R$ 17,00, o cara devida DEZ MIL TALENTOS!!!! Ou seja, 10.000 X 216.000 X 17=??? É isso mesmo??? R$ 36.720.000.000,00?

Então, como eu falava, o cara, servo do rei, devia a ele essa quantia, sabe lá como ele contraiu essa dívida, exorbitante e impagável. Daí, ao ser cobrado da dívida, o rei ordenou que ele, sua mulher, seus filhos e todos os bens fossem vendidos pra que conseguisse quitar sua dívida. É, gente, isso mesmo, que ELE fosse vendido, sua mulher e filhos também, não só os bens, mas que o próprio devedor e família fossem vendidos, porque, cá pra nós, só se eles fossem vendidos pra pagar a dívida! E dependendo do valor do caboclo, não sei não!!!

Mas aí o devedor, coitado, implorou ao rei que lhe desse um pouco mais de tempo e tivesse paciência e misericórdia, prometendo que pagaria em breve. Mas como? Aquele valor?! Ele achava mesmo que o rei fosse ingênuo pra acreditar nisso? Ou será que ele mesmo não tinha noção do que eram 10 mil talentos e que a dívida não seria paga jamais, nunquinha?

Pois é, o rei sabia que a dívida jamais seria paga, que não importasse o tempo que desse e mesmo que o devedor se vendesse e vendesse sua família, jamais conseguiria lhe pagar a dívida. Teve pena então daquele pobre servo (pobre mesmo, porque devendo tudo aquilo, poxa vida!) e o absolveu da obrigação de pagar por sua dívida.

Que alegria, gente!!! Imagina você dever uma fortuna dessas e ser perdoado! Quantas Mega Senas ele precisaria jogar e ganhar? Quantos Big Brothers ele precisaria vencer pra arrecadar todo esse dinheiro? Daí, o rei simplesmente absolve aquele servo de pagar R$ 36.720.000.000,00? Nem sei ler esse número!!! Mas eu sei que é muito! Se fosse absolvida só da fatura do cartão de crédito já daria pulos de alegria e faria um culto de ação de graças convidando a igreja inteira!

Foi embora o servo aliviado, feliz da vida! De certo que se achou o servo mais amado e valorizado por aquele bondoso rei.

Mas daí.... o servo... logo que saiu da sua prestação de contas ileso da fúria e impaciência do credor e livre de ter que perder tudo e ser vendido, encontrou um conservo, de quem era credor do valor de 100 denários, que era o equivalente a R$ 6800,00! (1 denário equivalia ao pagamento de 1 dia de serviço braçal, 4g de prata, ou seja 4X R$ 17,00 X 100 = R$ 6800,00)

O servo perdoado, encontrando o conservo que passava ali desavisado, devendo pra ele 6800 reais, o abordou e agarrando-o pelo pescoço diz: “Aha!!! Sumiu, né? Tá pensando que esqueci que me deve, seu ‘nocego’? Não foge não, meu filho! Me paga logo! Tá pensando que sou seu pai?” (isso tudo faz parte da minha imaginação, gente).

O coitado do conservo, ciente da sua dívida e convenhamos que dever R$ 6.800,00 não é assim pouquinho, né? Mas também não é 36 mi.... bi...., ah, sei lá, não é 10 mil talentos! Pediu ao companheiro suplicando que tivesse paciência, dizendo que iria pagar! – É, confesso que acredito que ele até conseguisse pagar.

Mas o servo, esquecendo da boa dádiva do rei, da sua compaixão e da graça de ser perdoado de uma dívida exorbitante e impagável, voltou-se ao conservo com fúria e não estendeu o perdão a ele não! Mandou o coitado inadimplente para a prisão pra que ficasse lá até que sua dívida fosse toda paga.

Os que estavam ali com eles, tendo testemunhado a graça recebida pelo servo em ser perdoado da dívida impagável e também sua falta de compaixão em perdoar, indignaram-se e foram logo contar tudo ao rei.

Aí o tempo fechou!!!

“Como assim?”, fala o rei indignado. “Eu te perdoo de uma dívida que você jamais pagaria, nem que eu te desse a vida inteira para pagar, pois você só iria aumentar sua dívida e você, ao ver seu amigo lhe suplicando o mesmo, por uma dívida muito menor, lhe aprisiona por isso! Esqueceu que eu, sendo rei, te perdoei de muito mais?? Pois agora, quem será aprisionado até que me pague por tudo que deve é você!

Foi embora preso o servo sem compaixão. E não sei não se ele seria solto, pois pagar por tudo aquilo, meu filho, só se fizesse parte do Petrolão.

Brincadeiras, interpretações e trocadilhos à parte, mas o detalhe da parábola está no verso 35: “Assim também vos fará meu Pai celestial, se cada um de vós não perdoar de coração ao seu irmão” (irmã, pai, mãe, filhos, sogro, sogra, colegas, amigos, pastor, líderes, vizinhos etc). E este detalhe não me parece uma prerrogativa do crente apenas, não uma escolha ou um item opcional para a salvação. Para mim, parece ser o que me credencia ou descredencia para a salvação, pois se não me digno a perdoar, não me torno digna do perdão real, do perdão maior, do perdão à dívida maior.

Cá pra nós, falar assim até parece fácil. Parece que só consegue falar de perdão quem nunca foi humilhado por um chefe, um colega de trabalho, quem nunca foi traído ou rejeitado, quem nunca viu sua família sendo desmoronada e ameçada por uma traição, quem nunca foi demitido ou difamado, quem nunca sofreu bullying, quem nunca foi excluído socialmente, quem nunca foi enganado, ferido. Falar de perdão não é fácil pra ninguém, pois afinal, quem nunca sofreu nem que seja uma dessas coisas?

A verdade é que ninguém pensa na necessidade de perdoar assim, como se fosse uma obrigação, como se não tivéssemos direito e titularidade de nos sentir ofendidos para sempre, como se nós mesmos fôssemos mais devedores a Deus do que os nossos ofensores são de nós, como se nossa dívida fosse infinitamente maior do que a ofensa que sofremos uma dia, seja ela a exclusão, a humilhação, a rejeição, a traição, a demissão, o descaso, o desinteresse, o egoísmo, e seja ela de quem vier.

Mais do que necessário perdoar, é necessário saber quão necessitados somos de perdão. Acredite, não estamos tão bem na fita assim antes de recebermos o perdão de Deus. Quanto mais noção temos do valor da nossa dívida paga na cruz, mais fácil se torna perdoar.

Traga aí uma calculadora pra eu fazer meus cálculos....